Sou fãzona do Luis Fernando Veríssimo e o sigo no Twitter com o maior prazer! Hoje ele postou uma historinha muito legal sobre o que ele pediria ao Diabo se fossem fazer um pacto. Genial! [rs]
#diabo
A lenda de Fausto e do seu pacto com o Diabo foi usada por vários escritores, como Goethe e Thomas Mann, e interpretada de várias maneiras. Fausto simbolizaria a ambição humana pelo poder em trágico confronto com Deus e o Destino ou o espírito humano disposto a desafiar a Natureza e a danação eterna pelo conhecimento.
De qualquer jeito, é o mito inaugural do homem moderno, que sacrificou sua alma para ter a Ciência. Eu, por exemplo, já pensei muito no que pediria ao Diabo em troca da minha alma. Você já pensou? Depois de vencida as primeiras etapas, de estabelecer contato (um anúncio nos classificados?), marcar o encontro ("Eu vou ser o único com chifres e cascos, não tem como errar"), submeter minha alma a avaliação (ela não deve valer muito mas dizem que o Diabo não pechincha) e acertar os termos do contrato (meu advogado e um advogado do Diabo),o que eu pediria ao diabo em troca da minha alma? Já que não quero nem poder, nem glória, nem, na minha idade, loiras ilimitadas?
O Diabo, acostumado a grandes transações através da História com a Humanidade e o seu Ego, talvez se surpreendesse com as minhas pretensões.
Não, eu não pediria Sabedoria e domínio sobre o Tempo e o Espaço.
Pediria, para começar, que a minha mala fosse sempre a primeira a aparecer na esteira, no aeroporto. Posso ver a cara do Diabo, diante do meu pedido. Minha mala nunca - nunca! - é a primeira a aparecer na esteira. É uma aberração estatística. Pelo menos uma vez ela poderia ter aparecido, mas nunca aconteceu. Quero ter a felicidade de ver a minha mala aparecer na frente das outras. E não uma vez. Todas as vezes!
Outra coisa: quero o poder de abrir celofane de CD com a unha, e rápido.
É nesse momento que o diabo suspira desolado com a qualidade dos novos Faustos.
Outra coisa: Cartilagem de galinha. Não quero mais ter a surpresa de morder uma cartilagem de galinha, frango ou galeto. Nunca mais. Pelo resto da vida.
O Diabo parece estar a ponto de desistir, de mim e da minha alma.
Ele deveria ter previsto isso, quando eu o convenci a aceitar minha assinatura no contrato com Bic vermelha em vez de sangue.
E mais: Vaga em estacionamento de shopping. Sem precisar rodar muito. Para sempre.
O Diabo abre os olhos. Tenta, pela última vez, dar um significado maior ao nosso encontro, ou um valor maior à sua compra.
- Você não quer que eu lhe revele a Razão e o Objetivo da Vida?
- Tá doido.
- Não quer nada mais em troca da sua alma? Nenhum outro poder que a maioria dos mortais não tem?
- Nenhum.
Mas aí me ocorre outro.
- Ah sim. O poder de acertar o timer do videocassete!
E então o Diabo desiste.
Luis Fernando Veríssimo
Obs.: Para quem quiser, o tuite dele é: http://twitter.com/LuisFVerissimo
Justin and Parker. Thanks Lisa!
4 dias atrás

